| Louça na pia e o pensamento no amado |
| Sentiu a água nas mãos e um tremor leve nos lábios |
| Sensação de um frio que percorreu sua espinha |
| Vida dele por um fio, sexto sentido sabia |
| Ela tentou o contato, mas ele não atendia |
| O desespero tomou conta e logo chegou a notícia |
| Perda irreparável que acabou com a família |
| Era dor e revolta só o que ela sentia |
| Ouviu um barulho surdo e pensou que era o fim |
| Sentiu cheiro de queimado no cabelo pixaim |
| Por um instante sua vida lhe passou como um raio |
| Divagou se acabou, se ele viveu o necessário |
| Pensou na sua família e na mágoa que ficou |
| Nos pedidos de desculpas que pensou e não falou |
| E pensou na sua preta, nos momentos de alegria |
| Sentiu um beijo repousando na sua face: a despedida |
| Lembrou dos olhos de sol |
| Que iluminava sua vida |
| Lembrou do sorriso solto |
| Que ele nunca mais veria |
| A realidade agora deu lugar a um pesadelo |
| E a luta pela vida deu lugar ao desespero |
| Mas por que logo ele, sempre foi trabalhador |
| Não é culpado da miséria, situação do atirador |
| Engajado e envolvido em projetos sociais |
| Mesmo assim não foi poupado pela mão dos marginais |
| Tudo preto, o rancor se mistura com o medo |
| Guerra é guerra, e sempre traz dor constante e sofrimento |
| Sentiu raiva, mas passou, e pensou que era sua hora |
| Mas seu filho o esperava no portão de uma escola |
| Dos jornais sensacionalistas já virou notícia |
| Pro governo virou número, aumentou a estatística |
| O que se fazer? |
| Famílias destruídas são notícias da TV |
| Chega de Sofrer |
| O abismo social mata eu, mata você |
| Carro sem roda, pião e uma pipa rasgada |
| No seu barraco era esse o lazer da criançada |
| Muitas vezes já jurou que ele não roubaria |
| Mas a falta de feijão orquestrava o choro da filha |
| Era um bom coração, mas tinha vários pecados |
| Alguns furtos, coisa boba só pra adiantar um lado |
| Mas cansou de coisa pouca, foi na ideia de um irmão |
| «É só uma, duas horas e já é dinheiro na mão» |
| É só por o cano na cara, pra não esboçar reação |
| Depois só para no banco, faz o saque com cartão |
| Um já fica com o refém na campana, sem dar guela |
| Depois só larga o patrício em algum beco da favela |
| Chegou a hora e o gelado do aço na barriga |
| O nervosismo se instala, e se despede da filha |
| Reza um pai nosso em silêncio, clama à Nossa Senhora |
| Não deseja que uma bala seja o fim da sua história |
| O que se fazer? |
| Famílias destruídas são notícias da TV |
| Chega de Sofrer |
| O abismo social mata eu, mata você. |
| No farol, carro parado, assalto anunciado |
| O motorista tentou a fuga, um tiro foi disparado |
| Atingiu o black power de um rapaz indefeso |
| Tremedeira nas mãos, na consciência um peso |
| Saiu correndo assutado, um bicho encurralado |
| Ele estava de costas quando ouviu os disparos |
| E caiu sem olhar pra trás já sem movimento |
| Só ouvia as sirenes e o barulho do vento |
| O coração apertado, remói arrependimento |
| Já de olhos fechados, ele sofre em silêncio |
| Pediu perdão, um devoto de Nossa Senhora |
| Largado no chão, é chegada sua hora |
| O que se fazer? |
| Famílias destruídas são notícias da TV |
| Chega de Sofrer |
| O abismo social mata eu, mata você |